Agora que a fotografia penetrou no recinto das Artes Plásticas, com insistente presença, deve-se dedicar a ela atenção especial. É ocasião de se falar de um elemento que, depois de alguns decênios, está conseguindo posição de destaque: David Zingg.

    Opera no difícil setor da retratística, onde conquistou bom sucesso. Tive ocasião recentemente de posar no seu ainda romântico atelier da rua Frei Caneca. Logo me lembrei daqueles pintores concentrados no trabalho de reproduzir fisionomias, evocando toda uma história que começa, praticamente, na Renascença, e que no Oitocentos era ainda normal, à espera de que a objetiva a eliminasse pouco a pouco.

    O episódio da repulsa ao retrato de Winston Churchill pelo Parlamento e pela classe abastada inglesa, no fim a tela sendo queimada, demonstra muitas facetas da mentalidade contemporária. Foi um fato que, em certo sentido, deve-se atribuir à invasao da arte fotográfica. Retrato é, hoje, operação mecânica, uma vez que somente um artista do pincel ou do buril, em minha opinião, pode interpetar uma cara. Mais, é dificil saber de pintores e escultores que ainda se dedicam ao retrato, como de resto poucas são as pessoas que procuram os artistas para dita tarefa.

    Curioso: nos anos depois da última guerra, quando fui incumbido de reunir as obras da Pinacoteca do Museu de Arte de São Paulo, advertia-se no mercado uma espécie de idiossincrasia pelo gênero retrato. Aproveitei a novidade e assegurei ao MASP uma esplêndida coleção de retratos. Compraram-se, a preço quase de banana, também de mestres como Ticiano, Velázquez, Goya, Gainsborough, Reynolds e Lawrence, e até Manet e Van Gogh; o retrato pintado não era moda, um dos contra-sensos destas fileiras de montanhas que formam a história da Arte.

    Os substitutos dos retratistas foram e são os fotógrafos. Já nos Oitocentos surgiram mestres aos quais devemos o conhecimento direto dos personagens do século: retratos que, às vezes, superam os dos pintores, pois os que manipularam a objetiva eram artistas.

    Para fixar as lembranças de alguns, nada mais adequado do que a infalível objetiva. Naturalmente, se trata de escolher e provocar momentos em que o sujeito se manifesta. E mais vale o caracterizar, localização, posição, vestimenta, expressão, atitude, espírito.

    Esta prerrogativa é uma das do David, rápido e inteligente empreendedor. Ele tem uma ampla e vivida experiência profissional. Pratica, como poucos, o que é mais difícil, o humor; determina ambiente e comportamento. Fotografou muita gente.

    Conheço-o desde seus inícios no Brasil, seu percorrer caminhos, então proibidos à sua profissão: desejo irrestível de documentar, paciência no estudar atitudes, ajeitando o acessório. Zingg, reputo, é um mestre do retrato.

Professor P.M. Bardi