Vendo essas imagens criadas pelo olhar de David Drew Zingg (idade incerta e negada como uma preciosidade, mas, nele, está claro que a vida não cabe em medidas de vida), a primeira imagem que me ocorre é de que elas são os retratos de uma possibilidade perdida.

    Como no poema de Bandeira, elas representam uma vida que poderia ter sido - e que não foi. Melhor dizendo: são imagens de um país que poderia ter sido e que... quase foi.

    Talvez esse país hipotético só tenha existido mesmo na refração de uma câmera manejada pela alma inquiridora de um coração solitário e estrangeiro (ou estrangeiro e solitário, é difícil saber o que vem antes, em se tratando de Uncle Dave, um aventureiro que na vida poderia ter sido ainda um velejador sem yacht club, um bartender em Cingapura, um playboy dirigindo um Thunderbird no Molecón de Havana e tantas outras coisas. Mas, não se saberá jamais por qual articulação dos fios que movem a nossa existência de marionetes, ele preferiu ser aquele menino velho "lost in Paradise", São Paulo, numa dessas pequenas vilas que resguardam a intimidade provinciana da metrópole inumana, com uma charmosa perua Variant branca com finas faixas laterais vermelhas e pretas estacionada no pequeno jardim e a ossada do que uma vez foi uma motocicleta, na soleira, denunciando que ele gostaria de ter sido um Hell's Angel de coração doce ou o Peter Fonda acelerando ao som de "Born To Be Wild").

Voyeur Profissional

    Por meio do exercício obstinado de uma paixão por essa multiplicidade complexa que se chama "um país", ele tentou dar existência para sempre a uma graça, uma vivacidade, uma elegância, um charme particularíssimo de certos personagens do país chamado Brasil, como se o voyeur profissional detivesse o dom de dar vida eterna àquilo que, na verdade, só consegue espiar com um olho só.

    A fotografia é sempre um deslocamento, uma imperfeição do olhar consentida por uma réstia de luz. No caso de Uncle Dave, o interessante é que ele não se interessou pelo Brasil da mesma maneira que os outros retratadores estrangeiros se interessaram pelo Brasil: ele se dedicou mais aos personagens e menos à visão da paisagem paradisíaca e aos retratos da miséria exótica.

    É como se, ao tentar flagrar a alma privada de grandes brasileiros como Pixinguinha, Tom Jobim, João Gilberto, Pelé, Leila Diniz e dos artistas Chico, Caetano e Gil enquanto jovens, ele retratasse uma espécie de alma coletiva do brasileiro ou da brasilidade. Não o país real, mas o país de alguns de seus melhores filhos. Não o país real, mas o país que, talvez, David Zingg tenha sonhado (ou, apenas, vislumbrado, mas esse vislumbre ficará para sempre, impresso em suas fotografias como testemunho daquilo que Walter Benjamin chamava de "o inconsciente óptico").

    Essa simpatia pela terra e pelos seus habitantes foi a inspiração de um olho comprometido, envolvido, encantado, cativado, seduzido e, talvez por isso mesmo, tão à vontade e tão revelador de seus personagens.

    David Zingg pertence a uma geração que mudou a fotografia no Brasil dos anos 60. Do ponto de vista técnico, sua influência mais forte é no campo do portrait jornalístico. Mas, por favor, não se prenda a apenas isso, pois o que ele fez mesmo foi revelar para os brasileiros uma alma escondida otimista, feliz, lírica, tranqüila, generosa, confiante, educada, honesta, simples, calorosa, solidária... Quem diria que é o nosso mesmo país?

De Murray Kempton A Soft-Shelled Crabs

    Circunscrever a contribuição de David Zingg ao Brasil apenas ao âmbito da fotografia seria de uma indelicadeza imperdoável. Ele vive a nos ensinar pequenas grandes lições de humanidade também em outras atividades: por que precisamos aprender a ter heróis como Murray Kempton, qual o momento ideal para um "Gibson" te levar para aquele lugar no qual vale a pena viver, em quais lugares da América é recomendável se pedir "soft-shelled crabs", como carregar um chapéu na mala, qual a ocasião certa de se usar uma "bow-tie", a razão pela qual não se pode ficar muito tempo sem ouvir Lee Wiley, por que não se deve nunca abandonar a moral dos velhos "mavericks" e de como, apesar das imensas derrotas que amargamos neste terreno, é preciso sempre ser gentil e afetuoso com elas, as mulheres -- enfim, toda essa coleção de miniaturas do saber viver que ele descola da experiência riquíssima para compor uma espécie de etiqueta que nos ajuda a ser civilizados, em uma estranha época de grosserias e de individualismo exacerbado.

    Toda exposição deste menino rico de New Jersey que hospedava-se com a família inteira no Ritz de Paris, deste contínuo das rádios da NBC em Nova York, do aviador da Segunda Guerra, do fotógrafo da revista Look, do assessor de Adlai Stevenson, do autor de retratos memoráveis de John Kennedy, Joan Miró e Marcel Duchamp, do amigo de Bobby Short, do pai de um digi-geek em San Francisco, de um dono de uma loja de CDs raros em Boston, e de um bom guitarrista novaiorquino, do adepto incondicional dos Macs e surfista profissional da Net, é um momento precioso. Pois, como todo perseguidor, ele cuida zelosamente de apagar as marcas do seu passado, não fazendo exceção às milhares realidades que poderiam reaparecer por aí, caso seu imenso arquivo de imagens não tivesse se encarregado de destruí-las junto com ele mesmo.

Matinas Suzuki Jr.