Paciência: David Zingg não vai morrer nunca. Não, não é porque ele fez um pacto faustiano com a Internet e eternizou-se na memória de zilhões de chips. É porque ele me prometeu. Da minha parte, faço o possível para mantê-lo vivo. Obrigo-o a me levar aos melhores bares e restaurantes da cidade, ligo invariavelmente quando ele está no banheiro para pedir alguma coisa emprestada, imploro para que ele corrija no ato minhas cartas em inglês e invado sua casa e seu micro em busca das pesquisas que ele fez para mim na Internet. Ele agradece. Diz que ajudo a mantê-lo vivo. Da minha parte, além de tudo, aprendo muito. Se alguém tão estúpido conseguiu chegar aos 70-e-poucos anos, eu também tenho chance.

    Este ano eu e David viajamos 10 anos de amizade muito tumultuada, muito, muito sofrida e muito, muito muito engraçada. Juntos tivemos de desbravar a Flórida e seus Keys, São Francisco a bordo de um conversível vermelho, Oxford à beira do rio, a Itália, a Áustria, a Inglaterra e Nova York -- este último, um projeto em andamento, porque ainda não fomos a todos os bares e ainda não cumprimentamos todos os moradores de rua.

    Viajar com David, em São Paulo ou pelo mundo, é um misto de prazer e dor. No exterior, o primeiro obstáculo são suas cuecas Brooks Brothers brancas, que batem no joelho e obrigam companheiros de quarto a conter o riso para não dormirem do lado de fora. Estar com David em São Paulo é viajar pelos olhos de alguém que é estrangeiro em qualquer lugar e que olha meu país com o olhar crítico que ele merece. De respeito e ao mesmo tempo de indignação, com o que dá certo e o que dá errado, com o que torna a vidinha dele mais difícil e a alma dele mais feliz. Politicamente, David tem opiniões que às vezes me escapam -- para dizer o mínimo e para manter o nível nesta página que ele me obrigou a escrever. Ele acreditou no Collor, mas isso deve ter sido obra de sua alma puritana, abençoada por uma bondade que toca os limites da auto-preservação e ali se pergunta se não pode ir um pouco além. Assim é o David que eu e os leitores dele conhecemos. Vive entre o prazer de ajudar, e o prazer de ajudar -- a si mesmo. Nada mais justo. Entre mim e você, eu fico com ele.

Rebeca Kritsch